terça-feira, 5 de junho de 2012



Eu nasci na freguesia de S. Bartolomeu do Rego, Concelho de Celorico de Basto em 1938. Era uma freguesia muito pobre só se vivia da agricultura e as terras eram poucas para tanta gente. Havia muita fome, não se recebia nenhuma ajuda como subsídios, trabalhava-se muito todo o ano para colher pouco e às vezes nem dava pão para comer. Comecei a guardar gado aos cinco anos, andava descalça no meio do mato, na neve e escasseava o dinheiro para tudo.Aos 15 anos pedi ao meu pai para trabalhar numa casa de freiras. Ele acedeu e acompanhou-me a pé a Santa Quitéria e fui para Lisboa com duas freiras fazer retiro. Chorei muito quando me despedi do meu pai. Ele não me deu dinheiro, As irmãs pagaram-me o bilhete da viagem para Lisboa e já fiquei em divida para com elas.
Entrei pela primeira vez numa casa enorme onde viviam muitas crianças desde a idade da creche e o exame de admissão e eram todos pobres. A casa dava-lhe uma sopa e um bocado de pão e era o que comiam durante o dia todo. Eu estava a trabalhar na creche, era porteira, fazia limpeza de uma parte da casa e andava sempre a correr. Ao fim de semana lavava os bibes, ponteava-os para os meninos vestirem à segunda feira quando chegassem.Passaram-se dois anos e alguns meses e eu sempre com muitas saudades da família e simultaneamente com muita alegria por sentir que as irmãs eram minhas amigas. Eu gostava muito das freiras e dos meus meninos e meninas.
Um dia as saudades eram tantas que resolvi visitar a família e encontrei a minha mãe doente e já muito debilitada. A pobreza continuava e o meu pai e a minha irmã trabalhavam as terras. Não havia máquinas e os terrenos eram cavados à enxada e a custo de muito sacrifício e era duro demais…
O dinheiro que possuía dei aos meus pais e fiquei para ajudar a trabalhar os terrenos. Quando ia para os campos trabalhava e cantava. Eu tinha boa voz!
Naquela altura existia na freguesia uma Tuna e todos os tocadores eram jovens e o ensaiador tinha uns aninhos mais e veio pedir-me para cantar no grupo. Eu era muito introvertida e não queria aceitar o convite.
Então, este senhor pediu ao meu pai e eu acabei por aceitar. Fui cantora aproximadamente três anos e gostei muito. Naquele tempo participava em cortejos e festas. Chegamos actuar no cortejo da freguesia de Quinchães, concelho de Fafe.
Da minha freguesia um engenheiro residia no Porto com a família mas vinha passar os fins de semana a casa dos pais e quando saíamos acompanhava-nos e tirava-nos fotografias. E, de vez em quando chamava-me ao lado e dava-me uma ou outra fotografia.
Ele costumava mandar fotografias para o jornal.
Uma senhora que se encontrava no Brasil e que visitou Portugal e era minha vizinha na minha aldeia disse que tinha recebido o jornal e tinha a minha fotografia.
Fiquei encantada!





Depois casei e foi o fim de toda a alegria!
Era vitima de violência física e psicológica.
Nasceram dois filhos e o meu marido emigrou. Fiquei a trabalhar no campo e em casa dos meus sogros. Foram uns dias muito difíceis porque fiquei doente e tinha de trabalhar. Eles diziam que eu não tinha qualquer mal. Eu ia ao médico mas não se faziam exames m+edicos naquela época.
Andei assim alguns anos com muitas dores e sempre a trabalhar ao calor do sol e com muito sacrifício. Depois descobri um médico e recomendou um cirurgião especialista em Braga. Na consulta este marcou a cirurgia, não sabendo o que ía encontrar mas na sua opinião era grave.
Continuei a trabalhar com um calor horrível, com febre e dores, os meus sogros e o meu marido sempre afirmar o seguinte: “ não tens nada.”
Chegou o dia de entrar na Clinica de S. Lázaro em Braga, o meu marido estava cá de férias tratou-me muito mal usando muitos palavrões e foi este o apoio que tive antes de sair de casa.
Eu tinha 29 anos e estávamos no mês de julho. Não recordo nem a hora nem a data. Estive uns dias com gelo na barriga e não o sentia, apenas quando colocava a mão entre o gelo e o ventre é que sentia a barriga gelada.
No dia da operação deram-me anestesia local por ter alergias e pensarem que era bronquite e por isso, a meio da cirurgia senti-me muito mal.
Vários médicos estiveram presentes e o cirurgião continuou o trabalho, melhorei.
O médico especialista fez-me uma histerectomia. Estava cancerosa já tinha um rim muito danificado. Não desejo a ninguém as dores que senti!
Sofri muito. Não tinha apetite. A comida era boa mas não conseguia comer!
No dia 14 de agosto pedi alta. Um médico novo examinou-me e achava que não devia sair no estado em que me encontrava. O operador achou que recuperava em casa. Regressei a casa e não me segurava em pé. Tinha dois filhos pequenos e o pai era muito mau e tinha receio de lhes acontecer o pior!
A recuperação foi muito demorada. Comecei logo a cuidar dos filhos e dos trabalhos da casa e sempre mal…
Só passados dois anos as pessoas acreditaram que ia vencer.
Quando melhorei fui aprender a tricotar e juntei dinheiro necessário para uma máquina de costura para ajudar os meus filhos – o pai não queria que eles estudassem. Ele não queria que lhe gastassem o dinheiro. Os meus filhos e eu passamos muitas dificuldades.
Quando o meu filho fez a 4.ª classe o professor era de Santo Tirso e aconselhou-me a deixá-lo estudar porque aprendia muito bem.
Ele próprio escreveu para uma casa de missionários para saber as condições de acesso.
Rapidamente obteve resposta. Eu comprei tecido para fazer lençóis, almofadas, os lenços da mão, as meias e marquei todas as peças com o número que lhe atribuíram.
O meu filho foi para um seminário do Porto e foi difícil vencer a ausência.
Volvidos dois anos vim residir para Fafe com a minha filha para ela estudar. Eu trabalhava até às 4/5 horas da madrugada a fazer malhas para gastar o menos dinheiro possível do meu marido.
Era sempre uma guerra por cartas. Quando vinha de férias dizia à mãe que eu gastava pouco e a mim dizia o contrário.
Nunca pegou na mão dos filhos e dizia não dar um passo por eles e não deu…

...
O que mais desejava na vida era emprego para os meus filhos e que ficassem independentes. Graças a Deus conseguiram emprego e eu fiquei muito contente. Depois casaram e eu pensei viver num lar de terceira idade mas o meu pai tinha muito idade e optei continuar em casa para cuidar do seu fim de vida. Fui ficando e começaram a chegar os netos e ajudei a criá-los. Depois do falecimento do meu pai passados uns meses fui muito mal tratada pelo meu marido e saí de casa. Estava ao meu cuidado a neta mais nova com três anos e meio durante o dia e em seguida foi para o Infantário. Não se adaptou e fui viver para a casa da minha filha e continuei a dar-lhe assistencia até à 4ª. classe. Já possuia muitas alergias e com os gatos e pássaros que existiam lá em casa (já inalava um pó) mas comecei a piorar do sistema respiratório e dos olhos.
Decididamente mudei a minha residência para o Lar da Santa Casa da Misericórdia onde felizmente me enconto há uns anos e meu marido ficou lá em casa.
E. J. S. C.
Fafe, 6 de junho de 2012.

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